Sabe aquele produto que você compra achando que serve para uma função específica, mas acaba surpreendendo ao fazer mais — e melhor — do que o esperado? Esse é exatamente o caso da Royal Enfield Guerrilla 450.
Lançada no Brasil em setembro do ano passado, a moto chegou com preços de R$ 28.990 na versão intermediária e R$ 29.490 na topo de linha. A proposta é clara: ser uma opção mais potente para o uso urbano, mas sem abrir mão da capacidade de encarar viagens curtas de fim de semana e até um off-road leve, quando necessário.

Adeus Scram 411, bem-vinda nova fase
A Guerrilla 450 veio para ocupar o espaço deixado pela Scram 411, modelo que já não fazia mais sentido no mercado brasileiro. O motor antigo entregava pouco desempenho e o pacote tecnológico estava defasado.
Para se ter ideia do salto, a diferença de potência entre o motor 411 e o novo 450 é de quase 20 cv. Em motos, isso muda completamente a experiência de pilotagem.
Base consagrada: tudo começa na Himalayan 450
A Guerrilla 450 nasce a partir de uma base bem conhecida: a Royal Enfield Himalayan 450, atualmente a maxtrail mais vendida do segmento. Motor, chassi, transmissão, freios, iluminação e painel são praticamente os mesmos.
A diferença está no conceito:
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Himalayan: trail, voltada para estrada e aventura
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Guerrilla: roadster, com foco urbano e visual mais agressivo
Curiosamente, enquanto a Himalayan vende muito bem, a Guerrilla ainda não engrenou — algo que pode ser mais uma questão de posicionamento do que de produto.
Preço e concorrência direta
No mercado, a principal rival da Guerrilla 450 é a Triumph Speed 400. Veja os valores:
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Guerrilla 450 Mid: R$ 28.990
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Guerrilla 450 Top: R$ 29.490
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Triumph Speed 400: entre R$ 29.990 e R$ 30.490
A diferença de preço é pequena, mas pesa em um segmento onde o consumidor é extremamente sensível a cada mil reais.
Motorização: ponto forte do conjunto
A Guerrilla 450 utiliza o motor Sherpa de 452 cm³, que entrega:
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40 cv de potência
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4 kgfm de torque
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Câmbio de seis marchas
Na prática, o motor se mostra esperto em baixas rotações, com boas arrancadas e ótimo comportamento no trânsito urbano. A recalibração priorizando torque em baixa faz diferença no dia a dia, principalmente em saídas de semáforo e retomadas rápidas.
O câmbio tem escalonamento correto para a cidade, embora os engates não sejam tão precisos quanto os de marcas como Honda ou Kawasaki. Não chega a incomodar, mas poderia ser melhor.
Uso urbano x estrada: prós e contras
No trânsito, um detalhe chama atenção: o guidão largo, com 83 cm. São apenas 2 cm a mais que o da Speed 400, mas isso faz diferença em corredores mais apertados. Ainda assim, não chega a comprometer o uso urbano.
Por outro lado, essa largura extra ajuda bastante na estrada. A posição de pilotagem é confortável e permite viagens de até duas horas sem grandes incômodos.
O ponto fraco fica por conta da ausência de uma bolha maior. A partir dos 120 km/h, o vento bate direto no peito do piloto, aumentando o cansaço em trajetos mais longos.
Estabilidade, peso e comportamento em rodovia
Com 184 kg, a Guerrilla é mais leve que a Himalayan, mas ainda mais pesada que a Speed 400. O desempenho é bom, porém em rodovias com ventos laterais fortes, é possível sentir a moto sendo deslocada por rajadas — algo comum em estruturas mais compactas.
Freios e suspensão: conjunto bem acertado
Aqui a Guerrilla manda muito bem. O sistema de freios Bybre (divisão da Brembo) com ABS de dois canais entrega frenagens seguras e progressivas, tanto no seco quanto no molhado.
A suspensão também merece elogios: absorve bem as irregularidades do asfalto urbano, transmite confiança em curvas e mantém um bom equilíbrio entre conforto e firmeza.
Tecnologia: boa ideia, execução discutível
O painel Tripper Dash oferece integração com o celular e exibe o Google Maps diretamente no display, funcionando como um GPS integrado.
O problema é a execução:
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O celular precisa ficar desbloqueado para o mapa funcionar
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O pareamento é lento e pouco intuitivo
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Pequenas falhas de conexão ainda são comuns
É um sistema com potencial, mas que precisa de ajustes urgentes.
Conclusão
A Royal Enfield Guerrilla 450 é uma moto bem mais completa do que o mercado parece reconhecer. Tem motor competente, bom pacote de freios e suspensão, conforto aceitável para viagens curtas e excelente versatilidade no uso urbano.
Seu desempenho tímido nas vendas parece estar mais ligado à estratégia agressiva da Triumph com a Speed 400 do que a qualquer deficiência real do produto.
Para quem busca uma única moto para a cidade e escapadas de fim de semana, a Guerrilla 450 é uma escolha coerente, honesta e com ótimo custo-benefício — mesmo que ainda esteja injustamente fora dos holofotes.